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Quando o Mercado Não Entende, o Valuation Sofre
Como a comunicação financeira reduz incertezas, fortalece a percepção de valor e aproxima empresas de seu verdadeiro valuation.
“O mercado é um mecanismo extraordinário para precificar expectativas. Mas ele só consegue precificar corretamente aquilo que consegue compreender.”
Cássio Rufino, COO & CMO da MZ
Existe uma pergunta que acompanha praticamente todo profissional de Relações com Investidores (o famoso RI) ao longo da carreira: por que empresas com resultados semelhantes podem apresentar desempenhos completamente diferentes na bolsa?
À primeira vista, a resposta parece simples. Uma companhia executa melhor sua estratégia, outra possui margens superiores, uma terceira cresce mais rapidamente, enquanto outra remunera melhor seus acionistas. Todas essas explicações possuem fundamento, mas nenhuma delas, isoladamente, consegue explicar a razão pela qual empresas com indicadores financeiros muito parecidos frequentemente negociam múltiplos de mercado bastante distintos.
Basta observar qualquer setor da economia brasileira. É comum encontrarmos companhias que apresentam níveis semelhantes de geração de caixa, rentabilidade, crescimento e alavancagem, mas que recebem avaliações significativamente diferentes por parte do mercado. Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Ele ocorre em praticamente todas as bolsas do mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, empresas que atuam em segmentos semelhantes podem negociar com diferenças relevantes em seus múltiplos de valuation, mesmo quando apresentam fundamentos comparáveis.
Isso acontece porque investidores não compram apenas resultados. Compram expectativas. Compram confiança. Compram previsibilidade. Compram qualidade de gestão, capacidade de execução e, principalmente, compram aquilo que conseguem compreender.
Essa talvez seja uma das maiores transformações vividas pelas áreas de RI nas últimas duas décadas. Durante muito tempo, acreditou-se que o papel do RI consistia essencialmente em divulgar informações obrigatórias ao mercado: preparar releases, organizar conference calls, atualizar o website de RI, responder dúvidas de analistas e cumprir as exigências regulatórias. Todas essas atividades continuam sendo indispensáveis, mas deixaram de ser suficientes.
Hoje, espera-se algo muito mais amplo. Espera-se que a área seja capaz de reduzir assimetrias informacionais, construir relacionamentos duradouros com investidores, fortalecer a confiança do mercado e transformar dados financeiros em uma narrativa estratégica que permita compreender como a companhia cria valor ao longo do tempo.
Essa mudança ocorreu porque o próprio mercado mudou. O volume de informações disponíveis para investidores nunca foi tão grande. Todos os dias são publicadas milhares de notícias, dezenas de relatórios de análise, comunicados ao mercado, fatos relevantes, apresentações institucionais, relatórios ESG, podcasts, vídeos, webcasts e conteúdos distribuídos pelas redes sociais. Nunca foi tão fácil acessar informações. Paradoxalmente, nunca foi tão difícil transformá-las em conhecimento.
Nesse ambiente, o maior desafio deixou de ser obter informação. O desafio passou a ser interpretar informação. É justamente nesse contexto que a comunicação financeira assume um papel estratégico. Ela não cria valor econômico por si só, mas permite que o valor existente seja compreendido pelo mercado. Essa diferença pode parecer sutil, porém possui implicações profundas para qualquer companhia aberta.
Existe uma frase bastante conhecida entre especialistas em valuation que resume essa lógica: o preço de uma ação representa o valor presente das expectativas futuras de geração de caixa. Embora seja frequentemente citada, poucas vezes refletimos sobre suas consequências. Ela significa que o mercado nunca comprou apenas o trimestre recém-divulgado. Nunca comprou somente o lucro do exercício ou a receita reportada. Na realidade, investidores compram aquilo que acreditam que a empresa será capaz de entregar nos próximos cinco, dez ou até vinte anos.
Essa lógica explica por que empresas que ainda apresentam prejuízo podem valer centenas de bilhões de dólares, enquanto outras, extremamente lucrativas, negociam com descontos relevantes em relação aos seus pares. O fator decisivo raramente está no passado. Está na percepção do futuro. E percepção depende, inevitavelmente, da qualidade das informações disponíveis.
É justamente por isso que a comunicação financeira exerce um papel tão relevante dentro da estratégia corporativa. Quanto melhor investidores compreendem determinado negócio, menor tende a ser a incerteza incorporada aos seus modelos de avaliação. Quanto menor a incerteza, menor costuma ser o prêmio de risco exigido para investir naquela companhia.
Esse raciocínio encontra respaldo em uma extensa literatura acadêmica sobre assimetria de informações, eficiência de mercado e custo de capital. Desde George Akerlof, com seus estudos sobre assimetria informacional, passando pela Hipótese dos Mercados Eficientes de Eugene Fama e chegando às pesquisas mais recentes sobre qualidade do disclosure corporativo, a conclusão permanece consistente: mercados funcionam melhor quando possuem acesso a informações de qualidade.
Isso não significa que empresas bem comunicadas necessariamente apresentarão melhores resultados operacionais. Comunicação não substitui execução. Jamais substituirá. Nenhum release bem escrito compensa um modelo de negócios frágil. Nenhuma apresentação de resultados resolverá problemas estruturais de rentabilidade. Nenhum Investor Day será capaz de transformar uma estratégia ruim em uma boa estratégia.
Entretanto, também é verdade que estratégias excelentes podem levar muito mais tempo para serem reconhecidas quando não são adequadamente comunicadas. E esse atraso possui consequências concretas. Consequências econômicas, financeiras e estratégicas.
Imagine duas empresas com exatamente o mesmo EBITDA, crescimento, retorno sobre capital, nível de endividamento e potencial de expansão. A diferença entre elas está apenas na forma como se relacionam com o mercado. A primeira mantém uma área de Relações com Investidores altamente estruturada. Realiza Investor Days periódicos, disponibiliza apresentações detalhadas, produz conteúdos educativos, atualiza continuamente seu website, explica fatores não recorrentes, contextualiza riscos, apresenta indicadores operacionais complementares e mantém diálogo constante com investidores e analistas.
A segunda empresa limita-se ao mínimo necessário. Publica os documentos obrigatórios, realiza conference calls objetivas, atualiza seu website apenas quando exigido, não disponibiliza materiais complementares e possui pouca interação com o mercado.
Qual delas tende a ser melhor compreendida pelos investidores?
A resposta parece evidente. Mas existe uma segunda pergunta ainda mais interessante: será que ambas serão precificadas exatamente da mesma forma?
Provavelmente não. Isso porque investidores não precificam apenas aquilo que sabem. Eles também precificam aquilo que desconhecem. Toda informação ausente acaba sendo substituída por estimativas. Quanto maior a necessidade de estimativas, maior tende a ser a percepção de risco associada àquela companhia.
É justamente nesse momento que surge um dos custos mais invisíveis enfrentados pelas empresas de capital aberto. Não se trata de um custo registrado nas demonstrações financeiras. Ele não aparece no fluxo de caixa, não é reconhecido contabilmente nem pode ser encontrado nas notas explicativas. Ainda assim, existe. É o custo da incerteza.
Quanto maior a dificuldade de compreender determinado negócio, maior tende a ser o desconto aplicado pelo mercado. E, em muitos casos, esse desconto não decorre da qualidade da empresa, mas da qualidade de sua comunicação.
Essa constatação muda completamente a forma como devemos enxergar o trabalho de Relações com Investidores. O objetivo da comunicação deixa de ser simplesmente informar. Passa a ser reduzir incertezas. E reduzir incertezas significa diminuir a distância entre o valor que a companhia efetivamente possui e o valor que o mercado consegue enxergar.
É exatamente essa diferença que transforma a comunicação financeira em um dos ativos estratégicos mais importantes de qualquer empresa de capital aberto.
Pensando nisso, a MZ publica trimestralmente o Estudo “Performance de Mercado das Empresas Brasileiras no 1S26”, em que analisa o comportamento das companhias brasileiras com ações negociadas na B3 e em bolsas norte-americanas. Mais do que mensurar a performance das ações ao longo do semestre, o levantamento busca compreender como características estruturais das empresas, como porte, liquidez e setor de atuação, e diferentes práticas de comunicação podem influenciar a percepção do mercado. Ao transformar dados em inteligência, o Estudo oferece aos profissionais de RI importantes referências para avaliar suas estratégias de comunicação, contextualizar seus resultados frente aos pares e apoiar a construção de narrativas cada vez mais transparentes, consistentes e orientadas à geração de valor.
Esperamos ter contribuído com insights sobre a importância da comunicação financeira para os profissionais de RI assim como para as companhias em sua constante busca por redução do custo de capital. Qualquer dúvida, já sabem, estamos por aqui, sempre à disposição! 😉
Cássio Rufino e Equipe Comunicação Externa & Pesquisa MZ
mz.estudos@mzgroup.com | (11) 9599-1329
Sobre a MZ
A MZ é referência global na criação de conteúdos informativos e educativos que geram valor real para as companhias, ajudando-as a se manterem atualizadas e preparadas para os desafios do mercado de capitais. Nossa abordagem é estratégica, com foco em fortalecer o entendimento sobre práticas de governança, comunicação financeira e relações com investidores. Acreditamos que, por meio de conteúdo de qualidade, podemos apoiar as empresas a aprimorar sua comunicação, elevar sua reputação e agregar valor sustentável aos seus negócios.
Sobre Cássio Rufino
Cássio Rufino é estrategista empresarial, especializado na integração entre estratégia, marketing e performance financeira. É Sócio-diretor da MZ Group, sendo o atual COO e CMO, onde lidera áreas estratégicas de operações, sucesso do cliente e marketing. Formado em Administração de Empresas pelo Mackenzie, com pós-graduação e MBA Executivo em Finanças pelo Insper. Além de especializações em Gestão de Pessoas, Marketing e Atendimento ao Cliente.